domingo, 2 de maio de 2010

Eis que ela chega impávida


Se pensarmos em longo prazo, não haverá muita dificuldade em prever o futuro de cada um de nos. Mas para alguns enfermos (ou não) esse futuro pode estar muito próximo, perto para meses, dias e eventualmente horas. Para morrer não se precisa de esforço, mas morrer pode ser difícil, pois hoje em dia, nosso último ato pode vir acompanhado de sondas, tubos e uma infinidade de procedimentos que irão atrasar a pragmática natureza, que implora para reciclar tudo o que lhe pertence. E inventiva possa criar nova vida.
A filha me olha, me pergunta isso e aquilo e quer que eu resolva. Já nem sei quantas vezes já expliquei o que acontece. Não há mais espaço para os pulmões, fígado e cérebro. Os pobres órgãos ficaram exprimidos por um tumor malvadinho que acometeu a mãe. Eu a olho e falo algo que sei que ela não entendera, pois ela já montou sua realidade já tem seus dogmas. Fala que a mãe passa mal por causa do analgésico, por causa do antibiótico e nem pela doença E como é o mesmo o nome dela? Câncer.
Mas agora as 24:00 no hospital, depois de eu cruzar a cidade para falar o discurso padronizado (eu também já montei minha realidade), digo tudo para a filha perplexa. Existe uma possibilidade de melhorar a complicação de agora. Mas devido as alergias de sua mãe so há uma possibilidade (eu estava dramático, mas menos do que a situação),
E vai dar certo doutor? –me obrigando a dar resultados, enquanto eu poderia apenas paliar.
Não sei, digo objetivo. O tempo dirá. Se ela tiver uma alergia e morrer, não deu. Se ela responder ao tratamento, deu. (e para mim digo: se der certo adiarei por semanas a inevitável morte, a qual já vejo na janela)
Tudo deu certo e encaminho a doente para mais uma prorrogação. Se a vida dela foi vitoriosa, não serão os próximos dias que mudarão isso.
Senhor Hyde

Um comentário:

Geo disse...

Obrigada pela visita em meu Blog. Justamente para me desfazer do rótulo é que escolho o 'nu' na maioria das imagens do Blog, para me despir do que pode iludir a percepção. Achei sua visão peculiar e muito interessante. Aliás todos temos uma queda ao Mrs Hyde. Quantas vezes não gostaríamos de deixar aflorar o 'monstro' que existe em nós. Assim quem sabe, contrariando a massa, descobrindo a 'verdade', rebeldes em nossa própria contradição, nos aceitamos mais ou encontramos a nossa razão. As vezes também não queremos ser profundos, mas, apenas ser, sem definições, 'bom' ou 'ruim', apenas você. Seria tão bom estar nu o tempo todo! Sem o peso do 'pecado' e a culpa pela perda do 'paraíso'.

Voltarei mais vezes...

Um abraço!

Geo