domingo, 9 de maio de 2010

A medicina do futuro


Cura do câncer? Vacina contra AIDS? Escolha da cor dos olhos, força e inteligência antes do bebe nascer? Tratamento definitivo contra a doença de Alzheimer? Isso já fora superado há décadas em 2360. Neste ano os desafios da medicina serão outros como especula o doutor Ludiving Von Torquematenistein do Instituto de Futurologia da University of Louisiana at Monroe West em sua crônica literária publicada em um suplemento da revista Neurology Psychiatry Neurosurgery. Aqui eu resumo o texto do respeitado futurólogo, sem erros de tradução:
O doutor Choprey pergunta sério ao Doutor Choprey II: e o caso DG ? Seu filho e seu aprendiz de medicina-mecatrônica, especialidade que já existia há pouco mais de século e meio, disse envergonhado: não sei a solução. Seu pai o fulmina com seu olhar gelado e preciso: - Esta aguardando o quê? Choprey II desaparece nos corredores do hospital e vai atrás da resposta que havia negligenciado.
Mais do que mero filho do dr Choprey, Choprey II era na verdade um clone de seu pai, concebido sem a participação de mulher, gerado em útero artificial. Sexo com fins recreacionais, reprodutivos, amorosos havia saído da prática entre os poderosos, pois era considerado anti-higiênico além de desviar o foco das atividades em prol do desenvolvimento pessoal. Choprey II sabia o significado do olhar do seu pai em que a preocupação e a raiva transbordavam . Preocupação com o futuro do moleque, ou melhor, dos seus genes que desejaria eternizar com Choprey II e nos futuros projetos de Choprey III, IV, V... e raiva ... implantes de chips no cérebro que aumentavam a capacidade de imaginar tridimencionalmente, memória, coordenação motora, pareciam não funcionar tão bem em conjunto e o menino não decolava como aprendiz. As próteses biônicas que criara não funcionavam como as próteses desenvolvidas no outro serviço, e isso era apenas uma das varias falhas do rapaz.
O que havia de errado com Choprey II? Provavelmente a equipe de implantes de chips cerebrais havia errado o local da fixação do material ou outra coisa. Se continuasse falhando, provavelmente seria congelado e talvez fosse re-entregue para o trabalho apenas se os problemas fossem resolvidos. Nesta época já não havia mais residência médica como programa de aprendizado, como em qualquer profissão de 2360 os ofícios eram quase sempre ensinados de pai para filho. Os seres humanos haviam se especializado, a mobilidade social era quase nula, famílias cuidavam de determinados setores e raramente mudavam, mas o conceito de família já não era mais o do passado, o sexo era dispensável para a reprodução e isso mudara tudo nos laços familiares, algumas famílias eram constituídas por clones. Mas a clonagem havia se desenvolvido, com algumas novas técnicas se aperfeiçoavam os frutos gerados. Quanto mais rico fosse o pai (ou mãe) mais e melhores implantes cerebrais poderiam ser implantados, melhores clones seriam produzidos e mais aptos para determinada função seriam os filhos. Mas algo havia saído errado com Choprey II, e ele estremeceu.
Foi de encontro ao quarto em que estava a senhora DG (Dercyhai Gonlvesth) de 230 anos, uma das filhas de uma das pacientes pioneiras do serviço médico de imortalidade. Como a boa prática médica recomendava não entrou no quarto e nem à examinou, acionou o robô que levava a ressonância magnética portátil. Os pacientes não eram mais examinados pelos médicos, havia risco de disseminação das bactérias super-resistentes criadas através de uso indiscriminado de antibióticos. Ressonância portátil fazia o papel. Fluidos líquidos não eram colhidos, através do uso de infravermelhos em extremidades qualquer parâmetro era determinado. A mãe da paciente uma senhora de 270 anos movia seus braços biônicos com raiva, ela aparentava alguém que estava com 25 anos no ano de 2010. Não conversavam, a relação médico paciente se baseava em envio de contratos, consentimentos, relatórios, que eram analisados por advogados de médicos e de pacientes. Ela queria saber o que ocorria com a filha.
Os chips implantados não funcionavam mais na senhora DG. Choprey II : pensou desde a cura da doença de Alzheimer a medicina não se deparava com algo assim, até que as primeiras pessoas que superaram os 230 anos começaram a surgir, eram alguns dos primeiros candidatos a imortalidade. E o mesmo estava ocorrendo com DG , a ressonância mostrava o cérebro havia se consumido e a medicina teria seu desafio, em barrar algo que trazia a morte novamente. Órgãos robóticos, clones de órgãos, pele a prova de rugas, olhos com lunetas eram exemplos do que havia se tornado a medicina, quimioterápicos de nanotecnologia que eram específicos contra células de câncer foram criados. E problemas de saúde eram resolvidos com algoritmos de computadores. O jovem médico não sabia o que fazer, pensou na eutanásia, pois o que restava da vida da DG parecia estar apenas ali para fazê-la sofrer. Eutanásia era sempre recomendada, a morte natural não era aceita pela sociedade. As maquinas estavam tão presentes ao lado dos seres humanos, que era inconcebível morrer sem elas.
Seu pai ligou pelo serviço de telepatia, orientou eutanásia para alívio. E qual o método de eutanásia? Tiro por lazer, gás, pílula? DG não havia tomado a decisão, enquanto podia agora inconsciente era impossível tomar a decisão. Choprey II se envergonhou, a paciente já não mais podia pensar. Choprey II seria congelado assim que seu pai soubesse, pois por sua falta alguém morreria naturalmente em anos...

2 comentários:

Geo disse...

Excelente post! Pensei em tantas coisas ao lê-lo comentar ficou difícil, mas vou arriscar. A primeira minha questão foi:
- A perda da humanidade em busca da imortalidade. O homem querendo ser Deus. Seria isso uma evolução ou retrocesso?
- A perda do lado humano da medicina. Não seria essa uma das questões atuais a se discutir em muitos tratamentos, inclusive nos casos de câncer. Até que ponto vale a pena lutar pela 'vida', sabendo que o sofrimento gradualmente aumentará? Seria a eutanásia a solução para este 'mal'? O mal a ser superado seria a própria natureza e condição? O que há de antinatural em ser (humano) ou na morte?

E por mais que estas questões pareçam ser futuras, não são. Desta forma o futurólogo abordou um futuro criando um paradoxo com o presente e, consequentemente, um dilema ético.

Há que se ter um cuidado em não se aceitar as imperfeições, pois mesmo acreditando-se perfeitos algum dia, não devemos negar a nossa natureza. Penso ser importante também não esquecermos o motivo que nos levará ao avanço da ciência e tecnologia, talvez por isso tanta discussão sobre a ética nas pesquisas científicas.

Não sou contra a evolução da ciência, tecnologia, informação e nem pela busca de um aumento na perspectiva de vida. Mas as relações humanas estão demasiadamente afetadas por falta de valores (sejam familiares ou sociais) e cabe a todos que tem acesso a educação lutar por estes valores e sua evolução conjunta com a ciência, e não criar clones de sua própria 'ignorância' ou 'vaidade'.

Dr Jekyll VS Mrs Hyde disse...

Mas nem tudo é ruim, a vitalidade ate idades avançadas. Acredito que um dos dilemas maiores fica com a falta da renovação, e a imortalidade e a genética em função de um grupo de pessoas.