domingo, 16 de maio de 2010

Tocado pela mão de Deus


Acordo cedo, ainda vítima de alterações cognitivas causadas por sono. Demorarei algo em torno de 1 hora para alcançar o despertar inteiro, ou seja uma hora para não confundir mais a porta do armário do banheiro com um sonho, lavo a cara , vejo as profundezas das olheiras, escovo os dentes, e logo depois percebo o quão ruim é banana após escovar dentes. Pasta de dentes avacalham qualquer paladar. Eu já sabia disso, mas as vezes insisto no erro. Saio do apartamento e chamo o elevador, aperto térreo, mas não era lá o meu destino, corrijo o alvo é o subsolo. No subsolo entro no meu carro dou a partida e risco a porta dele no pilar (mal dito síndico que me deu a pior vaga) , vou rumo ao hospital. Paro em cima da faixa de pedestre enquanto o celular tocava, deveria ser algum caso no pronto-socorro prontinho para eu resolver. Continuo ao destino, um caminhão tampa a minha visão e por isso não percebo que acabo de passar no sinal vermelho, aliás, até percebo, mais algo tarde demais para mim, mas ainda ha tempo do amarelinho me multar. Enfim chego ao hospital.
Visto o meu jaleco, arrumo o crachá, coloco o estetoscópio no pescoço e me transformo, agora sou o doutor, acabo de acordar por completo, eis que mudo de persona.
Começo o dia no pronto-socorro, tiro dúvidas dos plantonistas e impeço que eles façam alguma bobagem, mais a frente eles haviam parcialmente resolvido um caso eu dou a minha opinião e arruíno a conduta.
Subo para a UTI, e lá vem o segundo Round da luta: Medicina X Problema. O intensivista diz que não queria me incomodar, mas que amanhã eu poderia ver um caso e um blábláblá que nas entrelinhas era o seguinte: não sei do que se trata o caso, estou inseguro e possivelmente não se trata de um caso da sua área, mas... Vejo o paciente: Encefalopatia de Wernike, umas vitaminas milagrosas e temos a cura. Sucesso. O outro paciente da UTI, não, não é alguém com AVC, o problema esta na coluna cervical, mande para ressonância de urgência. Vem a ressonância: veredicto hematoma de coluna. Vamos à cirurgia descompresiva.
Vou para os quartos, 2 casos diferentes, mas que dividem a bizarrice como característica em comum, outros especialistas me olham com cara de interrogação para cada caso, e eu devolvo o olhar na mesma medida, como rotina. Aguardo evolução, exames complexos e alguns truques debaixo da manga que funcionariam como última bala na agulha, em vão. Lembro daqueles casos que apresentei em reunião científica em hospital escola, o resultado era invariável: um monte de idéias incongruentes, que apenas aumentavam o ego de quem as propelia, a solução se distanciava a cada frase que criava um pseudo-rumo.
Os pacientes e seus familiares exaustos me olhavam às vezes como que solicitam o último copo de esperança, e eu não derramo sobre eles. Seria bom se Deus me tocasse, e a sabedoria tomasse conta de toda minha fala, todas as palavras medidas pela razão e os gestos infalíveis.
Mas a única coisa que tenho é duvidas. Mantenho-me no centro, de um lado a ciência que insinua ter a resposta, do outro lado a escuridão que devora os homens pela ignorância. E o pulso ainda pulsa …
Dr. Jekyll

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