sexta-feira, 25 de junho de 2010

transplante de luz


Não consegui ler um trabalho científico antes do meu próximo paciente por causa da minha luminária. Quando eu estava na metade da minha leitura fui interrompido pelo mal funcionamento da sua lâmpada, tive que interromper meu estudo e trocar o material defeituoso. O tempo que gastei para solicitar que a secretária trouxesse a lâmpada sobressalente e efetuar a troca foi suficiente para que meu cliente chegasse, e assim fui atende-lo, o homem sofria de leucemia e sua única possibilidade de continuar a vida era receber um transplante de medula. Seu filho era seu único parente consanguíneo vivo, portanto, a esperança para ser o doador de medula. O homem veio trazer exames seus e do seu herdeiro. Eu olho os exames, e após chegar os resultados não consigo tirar meus olhos dos papéis. Aproveito para levantá-los a fim de esconder meu rosto ruborizado:
-Alguma novidade doutor?
- HAAA- (penso comigo, o senhor nem imagina a novidade)
-Então?
Por cima dos meus óculos, olho para o semblante de cada um, um a um, dos paciente, esposa e filho, que estavam a me encarar. Uma ordem sei lá de onde me comanda com os dizeres – pensa rápido, pensa rápido pensa rápido!
-Então? Dizem os três em uníssono. Som que ecoa em minha cabeça.
- Este laboratório que vocês colheram é muito ruim mesmo terão que repetir em outro...
-O que? – em outro coro, a coisa estava ficando muito teatral. Vamos processar o laboratório estando errado.
Sim, sim agora eu me enrasquei e novamente não sabia como continuar. De novo vem a voz : pensa! Pensa! PENSA!
-Não precisa tanto, só acho que deveríamos confirmar os resultados , na verdade o laboratório até que é bom, mas eu preciso dos resultados de um laboratório com maior experiência o assunto, pois pelos resultados não há possibilidade de transplante de medula.
O rosto da família era de decepção, transtorno, abandono. E em seguida a feição do doente era de pânico contido. Minhas frases eram quase que sua sentença de morte. Neste ínterim, frente a suspiros enfio os exames no prontuário afastando-os da posse da família enferma. Mais que depressa solicito novamente os mesmos exames e oriento o local em que deveriam ser colhidos.
Depois de palavras de falso otimismo me despeço.
Não havia contado a verdade, que era trágico-cômica. Os exames revelavam total incompatibilidade entre filho e pai, o que determinava que não eram biologicamente falando, pai e filho. O rapaz seria fruto de uma pulada de cerca da mãe, ou havia sido trocado por outro bebe na maternidade. E eu teria que descobrir como iria resolver essa parada.
Neste exato momento minha luminária de lâmpada nova pifa, definitivamente. O defeito ia além da simples troca.
Ass: Dr. Jekyll

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